Entrevista Exclusiva com Agnes Gereb


® Em 2007 fui para o Leste Europeu acompanhar meu marido  em uma viagem a trabalho. Já buscava parteiras pelo mundo desde 2002 para o meu projeto de resgate do feminino, Mães da Pátria, e já tinha muitos contatos.

Ao chegar em Budapeste, na Hungria liguei pra uma doula com uma certa ansiedade e insegurança, já havíamos trocado alguns e-mails. Muito simpática, ela ouviu educadamente meus propósitos e dedicação à causa das parteiras, (naquele momento eu senti o que era estar em um país com resquícios do comunismo), não seria fácil visitar a casa de partos, mas ela garantiu que consultaria Agnes Gereb, e pediu para que voltasse a ligar no dia seguinte.

No dia seguinte, recebi a resposta e as instruções. Deveria estar pronta às 8 da manhã do sábado, ela me telefonaria às 7:50 para dar a resposta final, caso confirmasse, me levaria ao encontro. A  casa de partos ficava do outro lado da cidade. Este foi um daqueles momentos de confiança absoluta, ir com uma pessoa desconhecida, para não sei aonde, do outro lado do mundo, sem falar o idioma, sem deixar o endereço para meu marido.

Imagina se dormi aquela noite? No dia e hora combinados o telefone tocou. SIM, eu poderia ir a casa de partos, teria 1 hora para conversar com a equipe de doulas e parteiras, que estariam me esperando.

Casa de Partos Budapest. Ágnes Gereß ® direitos reservados Mães da Pátria,essa foto  não pode ser reproduzida

Casa de Partos Budapest. Ágnes Gereß ® direitos reservados Mães da Pátria,essa foto não pode ser reproduzida

Muito animadas, seguimos naquela manhã fria de outono. Apenas minha mais recente amiga falava inglês e fazia o meio de campo. Depois de alguns minutos, todas nós nos entendíamos perfeitamente. A sinergia e a alegria de todas nós foi incrível.

Tiramos fotos, recebi um vídeo sobre o trabalho da Agnes, conheci a casa de partos e a única que assumia o trabalho de parteira era a própria Agnes  Gereb, ela se nomeava como ativista pelos direitos das parteiras, foi a primeira vez que ouvi alguém assumir esse título.

Agnes Geréb, é uma das pessoas mais serenas que já conheci, o olhar dela é tão profundo que fala na nossa alma. Uma mulher que fala baixo, doce e têm uma força contagiante.

Fiquei mais do que o tempo previsto e só voltamos porque iria começar um curso de casais grávidos, fotografei o grupo, retornamos para o centro e seguimos animadas para um café

® diretos reservados, essa imagem não pode ser reproduzida

® Doulas de Budapest

Nestes últimos anos mantivemos correspondência, acredito que os e-mails possam ser rastreados pois Agnes não se aprofunda nas informações.

Segue trechos de algumas entrevistas: Estes foram os último contatos, entre janeiro efevereiro de 2012, pouco antes de ter que voltar para a prisão

® Dear Bia,

Thank you for your letter. How are you?

My English is not very perfect – but I think now I wouldn’t be able to answer in Hungarian either,

Why I decided to be a midwife… I am in house arrest after being in prison for awhile and how things are going

I suppose I must go back…

My full name is dr. Agnes Gereb. I am an OB-GYN and midwife, and a psychologist, too. First I was an OB-GYN, I had been working in a WHO-Klinik for 17 years. During that time I realized that what I wanted to do was not that, but midwifery. The name of our birth house is Napvilág Születésház, which can be translated “Daylight Birth Centre” – in Hungarian “napvilág” has another meaning, there is an expression for being born, “to come to daylight” – sorry for my bed English… Your photos are excellent!

Love, Ag

TRADUÇÃO: Meu nome completo é Dr. Agnes Gereb. Eu sou um ginecologista e obstetra, e psicóloga também.Antigamente eu era uma OB-GYN (obstetra e ginecologista), trabalhei em WHO-Klinik por 17 anos. Durante esse tempo eu percebi que não era obstetrícia que eu gostava eu queria ser parteira

O nome da nossa casa nascimento é Napvilág Születésház, que pode ser traduzida como “Centro de Nascimento do Dia – em húngaro” napvilág “tem outro significado, é uma expressão para nascer “, para vir à luz do dia”Estou em prisão domiciliar depois de estar na prisão por algum tempo e da forma como as coisas estão indo Acho que vou ter que voltar para lá…

Nosso último e-mail ela desabafa:

® Thank you for your letter. I read it with pleasure and interest.

No, I can’t complete the two years because the house arrest is another case…It has not finished yet, there is no prosecution in that case.

I have to sit here because I am ” very dangerous for the society…”

So years, years, years…

I am not allowed to work as a midwife any more. ®

TRADUÇÃO: Obrigado por sua carta. Eu li com prazer e interesse. Não, eu não posso completar os dois anos porque a prisão domiciliar é outro caso … O processo ainda não terminou, não há nenhuma acusação neste caso. Eu tenho que ficar aqui porque porque sou muito perigosa para a sociedade … Anos, e anos e anos … Eu não estou autorizada a trabalhar mais como parteira, nunca mais...

® diretos reservados, essa imagem não pode ser reproduzida

® Aula de casais grávidos

A Hungria já legalizou o parto domiciliar, mas 5 parteiras que atuavam antes da legalização foram duramente penalizadas. Em 10 de fevereiro de 2012, o Tribunal da Relação de Budapeste condenou Ágnes Geréb e as outros quatro parteiras a dois anos de prisão e a proibição de praticar dobrou para dez anos.

A Agnes Geréb foi a primeira profissional que permitiu que o pai estivesse presente no trabalho de parto Ela já  fez  milhares de atendimentos de partos normais sem complicações

O processo penal contra as parteiras Húngaras estão tendo um efeito extremamente assustador sobre o estabelecimento de cuidados de obstetrícia normal na Hungria e o numero de cesáreas cresce vertiginosamente.

Há 170 anos a elite médica da Hungria ignorou os conhecimentos do Dr. Ignaz Semmelweis, o brilhante médico precursor das pesquisas de controle de infecção, (inspirado nas parteiras que lavavam as mãos) passou a salvar a vida das mulheres, lavando as mãos, os instrumentos e usar roupas limpas, entre a prática de dissecar cadáveres e o atendimento aos partos.

A injustiça se repete agora com a perseguição obstinada de Ágnes Geréb. 

Dia 6 de Dezembro há uma possibilidade de clemência e uma esperança. Ativistas participem!

® Materia exclusiva para Mães da Pátria. Esse texto ou parte dele não pode ser reproduzido, faça o link para essa página.

tres

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This entry was published on 06/12/2012 at 0:17. It’s filed under Ativismos, Mães da Pátria, parteira, rodar o mundo and tagged , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

2 thoughts on “Entrevista Exclusiva com Agnes Gereb

  1. Ticy on said:

    Olá, estou muito interessada nesse tópico.
    O que aconteceu com o pessoal que protestou sobre o fechamento do curso? Como anda aquele tópico.
    Espero que possamos nos comunicar mais!

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